A IA e a tolerância elastica
- 20 de out. de 2025
- 3 min de leitura
Entre velocidade e qualidade, o marketing escolheu a pressa.

Eu uso IA no meu dia a dia de trabalho. Acho que é uma ferramenta muito importante e poderosa. Acho meio bobo começar esse tipo de texto com algo como “a IA veio para ficar” e etc. Já passamos por essa página. O barco da IA já zarpou ou você está nele, ou se afoga.
O ponto é como, especialmente na área de marketing, tudo está mudando rápido demais. Tão rápido que parece que nem o público está conseguindo acompanhar.
A última coisa que vi foi um post do Burger King com um sorvete deitado na bandeja. Mas com uma busca rápida dá pra encontrar vários exemplos no LinkedIn e em notícias sobre peças de publicidade e campanhas feitas com IA que ficaram estranhas.

Mesmo que a ação seja proposital para engajamento (o que eu duvido). A única coisa que passa na minha cabeça é o quão bizarro isso é. Eu já trabalhei muitos anos na área de marketing e já fiz várias artes assim. Sei bem como o cliente pode ser exigente com uma sombra fora do lugar, um pixel errado, qualquer detalhe mínimo.E, pra mim, é muito estranho ver todo esse rigor sendo completamente descartado quando o assunto é IA.
É como se existisse uma régua de exigência: quando falamos de trabalho humano, ela é extremamente rígida, tudo deve ser perfeito. Mas quando tratamos de IA, essa régua se torna elástica, como se o raciocínio fosse “ah, tudo bem, ganhamos tempo fazendo isso rápido”.
E se você parar pra pensar, não é algo feito por uma pessoa só. É o trabalho de uma equipe inteira: concepção, briefing, prompt, arte, aprovação, publicação e impulsionamento. Várias pessoas viram isso e acharam “tá ok”.
Enquanto isso, os usuários recebem esse tipo de conteúdo esquizofrênico e são obrigados a engolir. O importante é ver a marca, né? Impactar, gerar conversão, atingir alguma métrica.Mas os fins justificam os meios. Certo?
Eu sinto como se tivéssemos chegado à era dos ultraprocessados da publicidade.Publicidade já era aquela linguiça toscana agora chegamos naquele nugget que parece um chinelão. Baixíssimo valor nutricional. Baixíssimo valor, ponto. Qualquer coisa serve, desde que tape um buraco.
Tá, mas e aí, o que podemos fazer?
Nada. Eu não acho que exista algo a se fazer. Essa é a nossa realidade. Algumas empresas vão adotar esse tipo de abordagem, outras não. E os usuários provavelmente vão se acostumar, começar a dar menos importância e engajamento para artes de IA. Daqui a alguns meses isso nem vai importar mais, porque as artes de IA serão tão perfeitas que não haverá mais erros e a vida vai simplesmente continuar.

Acho que o ponto desse texto é refletir sobre como as empresas reagiram a isso.Como elas estão, legitimamente, dispostas a sacrificar qualidade (e lógica com a realidade) pra ganhar tempo e economizar orçamento.
É um exemplo prático de como é importante estarmos sempre atentos aos dados e números das nossas performances — ter na ponta da língua o NPS, os dados de conversão e as datas de entrega em dia. Você pode fazer um projeto perfeito, lindo e maravilhoso, mas se ele demora demais pra ficar pronto ele. não. serve.
Esse texto pode parecer uma reclamação ou uma crítica sobre como as empresas tocam os negócios e se relacionam com o nosso trabalho — mas não é isso. Não estou dizendo que toda essa situação é boa ou ruim. Estou apenas constatando uma nova realidade.
Se há alguma crítica aqui, talvez seja a esse senso elástico e à tolerância cada vez menor com a qualidade.Isso me irrita um pouco. Por mim, tudo bem usar IA, mas precisamos manter a régua de qualidade lá em cima, como sempre foi.
No fim das contas, talvez o desafio não seja a IA em si, mas o que estamos dispostos a aceitar em nome da pressa. A tecnologia vai continuar evoluindo (e isso é ótimo), mas se a gente abrir mão da sensibilidade, do olhar crítico e da qualidade, o resultado final vai ser só mais um produto genérico, feito pra preencher espaço. A ferramenta é poderosa, mas o critério ainda precisa ser humano.






Comentários